Colunas
6 de abril de 2016

SOB A ÉGIDE DA CRUZ

Por: Frei Betto

O Brasil foi descoberto, invadido ou conquistado? Depende da ótica pela qual se encara a chegada dos portugueses em nosso território, o que comprova que todo ponto de vista é a vista a partir de um ponto.

Para Cabral e seus conterrâneos, o Brasil foi descoberto. Seja por intencionalidade, seja por casualidade, o fato é que as caravelas de Cabral, em seu percurso marítimo para as Índias, fundearam em águas e terras que constituiriam o futuro Brasil. Descobrimento ou achamento? Pouco importa. O essencial é que, não obstante o titubeio característico dos primeiros tempos, os portugueses tomaram posse efetiva do território e nele instituíram verdadeira colônia de exploração.

Para os milhões de indígenas que aqui viviam há milênios, Pindorama (Terra das Palmeiras, na linguagem indígena) foi invadida. A supremacia bélica dos portugueses logrou assegurar que subjugassem os povos originários desta terra que, em matéria de defesa, não sabiam utilizar senão artesanatos de caça e guerra: arco e flecha, tacape, lança etc.

Para a Coroa portuguesa, beneficiada pelo Tratado de Tordesilhas assinado com a Espanha sob as bênçãos do papa Alexandre VI, o Brasil foi conquistado, a ponto de se tornar uma colônia do Império Lusitano durante mais de três séculos. Recorde-se que, de acordo com o instituto do Padroado, desde meados do século XV, os reis ibéricos, mediante bula papal, se responsabilizaram administrativamente pela propagação do Catolicismo junto àqueles povos considerados infiéis.

Descobrimento, invasão ou conquista, a saga do expansionismo marítimo-geográfico português se deu sob a égide da cruz, símbolo cristão que chancelava a hegemonia da Igreja sobre a política ibérica. Cabral aportou a sua esquadra em um promontório no dia 22 de abril de 1500, em plena semana da Páscoa, ao qual deu o nome de Monte Pascoal. Ali, no domingo, 26 de abril, frei Henrique Soares, franciscano, celebrou a primeira missa em solo da América portuguesa.

Cabral, por imaginar que havia chegado a uma ilha, batizou o local de Ilha de Vera Cruz. Percebido o equívoco, mudou-se para Terra de Santa Cruz. Na primeira carta redigida aqui por Pero Vaz de Caminha, ele utiliza tanto Ilha quanto Terra, mas sempre mantendo a Cruz. Somente em 1503 é que, graças ao pau-brasil, o nosso país ganhou o nome atual.

Para os colonizadores, nossos povos originários eram infiéis “sem alma”, por não conhecerem a fé cristã, e idólatras, por cultuarem divindades abominadas pela doutrina católica. E deveriam se tornar civilizados, ou seja, adotarem costumes europeus, como cobrir com roupas suas “vergonhas”, e abraçar a fé da Igreja. O propósito era incontornável: vincar firmemente um processo de “conversão do gentio”.

Assim, sob a égide da cruz se impôs o projeto colonizador. Primeiro, sobre os indígenas, que recusaram submeter-se à escravidão. A partir de 1540, sobre os povos trazidos da África que, paradoxalmente, eram obrigados a aceitar o batismo – sob o pretexto de que iriam para o céu ao morrer –, para, em seguida, serem enviados ao inferno do trabalho forçado e dos perversos caprichos da casa grande.

Felizmente, hoje a Igreja Católica respeita as religiões indígenas e de origem africana, sem acusá-las de idolatria, superstição ou aberração. E estimula, sempre mais, o diálogo interreligioso.

Frei Betto

A Coleção


Newsletter

Inscreva-se em nossa mala direta e receba informações do site