Grandes temas
14 de abril de 2016

MARAVILHAS E MONSTRUOSIDADES: NA COLÔNIA, AS “SINGULARIDADES” ESQUECIDAS POR DEUS

Por: Mary del Priore

Ao longo da Idade Moderna, as combinações possíveis extraídas dos diferentes reinos da natureza pareciam infinitas, gerando o que se chamava, então, “singularidade”, “monstruosidade” ou “maravilha”. Presentes em todo o Ocidente cristão, elas fizeram a rota de tantos navegadores e chegaram junto com os primeiros colonos à terra brasilis. E junto vinha o olhar que os europeus tinham sobre a América. Ora se acreditava que o Novo Mundo era morada de seres que descendiam de Moisés, ora se acreditava que era o endereço fixo do demônio. Razão, aliás, pela qual o magistrado bordalês Pierre de Lancre, encarregado de processos de feitiçaria, reconhecia nas bruxas francesas resquícios de diabos expulsos do Novo Mundo. As terríveis criaturas teriam voltado à Europa para vingar-se de seus perseguidores.

Para definir as características das novas terras, multiplicaram-se as obras de cartógrafos e cosmógrafos, autores de livros de viagem ou monografias que deveriam representar a nova imagem do orbe terrestre. Como integrar o Novo Mundo ao Velho? Em seus relatos, os “primeiros descobridores” se mostravam menos impressionados pela grandiosidade da natureza e mais atentos à originalidade de seus habitantes. Colombo, por exemplo, sobre as Bahamas, utilizou o mesmo vocabulário empregado no célebre romance de cavalaria Amadis de Gaula para pintar ilhas imaginárias. Sua tendência foi embelezar a realidade, mencionando apenas o que era positivo e escondendo o resto: os canibais, os répteis e os animais ferozes. A natureza foi reduzida pelo navegador genovês a alguns elementos que pontilham seu texto com frequência: a água, a brisa, as árvores e o canto dos pássaros. Mas, se Colombo dá uma ideia imperfeita e às vezes irreal do espaço físico, ele sabia, por outro lado, fazer uma descrição bastante completa dos americanos. Chegou a reconhecer que, diferentemente do que anunciava o Livro das Maravilhas de Marco Polo, ele não encontrara ali raças monstruosas, embora tivesse visto à distância sereias menos belas do que imaginava.

Para a maior parte dos viajantes, a terra era a mesma de um lado e de outro do mundo. O Novo Mundo físico não podia ser mais do que um prolongamento do Antigo. Nele, deveriam encontrar-se as mesmas pedras, árvores, climas, plantas… Mas os homens! Eram eles o problema: conheceriam Deus? A que espécie pertenciam? Haveria monstros entre eles?

Os recém-chegados obedeciam a uma tendência que consistia em trazer o desconhecido para o conhecido. Diante do novo, haveria tendência a apegar-se aos raros elementos que permitissem evocar realidades familiares. Fazia-se referência ao que se conhecia pessoalmente ou indiretamente através de textos de outrem. Assim, as realidades raramente eram descritas por si mesmas, mas em termos de semelhanças e diferenças – ou seja, por comparação. Essa abordagem apareceria com frequência nos cronistas sobre a América portuguesa. Um deles, Gabriel Soares de Souza, destacava, por exemplo, a semelhança de climas que permitiu a adaptação de vacas, galinhas, ovelhas, cavalos e cana-de-açúcar. Tudo dava mais abundante e rapidamente. Mas, quanto aos homens, os resultados podiam surpreender: “Mas é de maravilhar trazerem do sertão, entre outros tupinambás, um menino de dez anos para doze, no ano de 1586, que era tão alvo que de o ser muito, não podia olhar para a claridade e tinha os cabelos da cabeça, pestanas e sobrancelhas tão alvos quanto algodão”. Filho de índios considerados pelo autor “muito pretos”, o menino albino inspirava espanto! Não era exatamente um monstro, mas um ser estranho, singular.

Outros autores insistem no maravilhoso. Paulmier de Gonneville, comerciante que vem ao Brasil em 1503 e leva o filho de um cacique carijó para a França, fica extasiado diante do que chama “produções da natureza”: o país era fértil, dotado de animais, pássaros e árvores e outras “coisas singulares desconhecidas da cristandade”. A noção de singularidade, entendida como o caráter raro de alguma coisa, aparece com insistência em vários textos da época. Ao largo da foz do Amazonas, por exemplo, Américo Vespúcio considerou-se diante de outra maravilha, pois a 25 léguas da costa ainda navegava sobre as águas doces do gigantesco rio.

Outro caso que mostra o prestígio das “singularidades” é o livro de André Thevet. Convidado a vir ao Novo Mundo com Nicolas Durand de Villegaignon, ele assistiu a tentativa de fundar uma França Austral numa ilhota do Rio de Janeiro. O curto verão passado “entre os mais selvagens do universo”, de 15 de novembro de 1555 a 31 de janeiro de 1556, permitiu-lhe descrever inúmeros fatos que deram origem a sua obra As singularidades da França Antártica, publicado em fins de 1557. A documentação sobre a fauna, a flora e os hábitos dos índios meridionais somou-se à fantasiosa descrição do autor sobre a existência de amazonas, dos antropófagos e do temido Hay, a inofensiva preguiça, assim descrita na pena de outro observador, Jean de Léry, seminarista e sapateiro, acolhido pelos tupinambás durante a tentativa de instalação da dita colônia na Guanabara: “O maior animal que os selvagens chamam hay é grande como um cão d’água com a face de um macaco, próxima daquela do homem; o ventre pendente como o de uma porca prenha, o pelo cinzento-esfumaçado como o da lã de carneiro negro, a cauda bem curta, as pernas peludas como a do urso e as garras muito longas”.

Não faltou quem investisse na vertente demoníaca de nossas terras, como o fez o gravurista protestante Theodor de Bry. Em sua coleção Grandes Viagens, ele ilustrou o Inferno Brasileiro: “Durante sua vida os pobres selvagens são terrivelmente afligidos pelo espírito maligno (o qual eles chamam kaagerre) que como vi várias vezes, os ataca na forma de besta ou ave ou em outra forma estranha”. As imagens são impressionantes. A cena abre-se para uma paisagem litorânea na qual uma pirâmide amontoa corpos atormentados. Um monstruoso e sarcástico demônio fustiga um índio. Soberbamente enfeitado com asas escamosas, chifres, garras bifurcadas, coxas peludas e sexo ornado com uma cabeça diabólica, ele parece cristalizar todos os vícios. Dois outros monstros rasgam os céus: um meio pássaro, meio serpente tem a pele coberta de escamas e bico pontudo. Outro, asas enormes, escarra seu veneno. Tudo indicava que a Terra de Santa Cruz fora assim chamada para afastar tais criaturas diabólicas!

Seres fantásticos vinham sendo descritos, desde Plínio, o Antigo, por “sábios antigos e modernos”. As amazonas, por exemplo, citadas na famosa Carta do Preste João em sua viagem para as Índias, quando não são encontradas no norte da África, deslizam para a América. Os antropófagos lembravam os “comedores da carne humana” mencionados em outra obra de grande circulação: o Romance de Alexandre, o Grande. O fato de nossos índios não serem cobertos “dos pés à cabeça” por pelos os afastava dos “ástomos”, cabeludos moradores da Índia, segundo tais escritos.

Acreditava-se, ainda, que o alto rio Branco, na fronteira com a Venezuela, era habitado por homens que não tinham cabeça, mas olhos no tórax, descendentes das blêmias descritas por Santo Agostinho. No século XVI, sir Walter Raleigh, navegador inglês, dizia tê-los avistado na Guiana e só foi desmentido, trezentos anos, depois pelo naturalista Von Martius, que ainda escutou lendas sobre tais criaturas fantásticas: “As lendas das amazonas, de homens sem cabeça e com a cara no peito, de outros que têm pé no peito ou possuem cauda do conúbio das índias com macacos, coatás e etc., são idêntico produto da fantasia dessa raça de homens”.

A redução de seres considerados prodigiosos – como as amazonas, os antropófagos, o tucano e a preguiça – a modelos conhecidos não excluía a fascinação dos autores pelo medonho e admirável. Nesse período, a singularidade era justamente reconhecida por essa tensão entre o horror e o esforço. Esforço para compreender o desconhecido. E horror pelo espetáculo que tais criaturas exóticas suscitavam.

Mary del Priore

A Coleção


Newsletter

Inscreva-se em nossa mala direta e receba informações do site