Curiosidades
14 de abril de 2016

HOMEM AO MAR! NÁUFRAGOS À VISTA!

Imagine salvar-se de um naufrágio e deparar-se com uma terra totalmente desconhecida, cujos habitantes possuem uma cultura inteiramente distinta da sua. Foi o que aconteceu com os portugueses João Ramalho (1512) e Diogo Álvares Correia (1510), o famoso Caramuru, e com o holandês não menos célebre Hans Staden (1550).

Naufragados na costa brasileira, na primeira metade do século XVI, todos os três experimentaram profundas transformações em seus modos de viver. Chegando ao litoral de São Vicente, João Ramalho se integrou à tribo tupiniquim do chefe Tibiriçá, cuja filha, Bartyra (flor da árvore), se tornou sua esposa. Adaptou-se de tal forma à cultura indígena que andava nu e pintado! E, considerando o longo período que viveu entre os índios, é bastante provável que tenha participado de rituais antropofágicos.

O Caramuru[1], imortalizado dois séculos mais tarde no poema épico de Santa Rita Durão, teve sorte parecida. Foi encontrado por Martim Afonso em 1531, viveu cerca de vinte anos entre os índios da Bahia, pelos quais era muito estimado, a ponto de desposar a índia Paraguaçu, filha de um chefe destacado. Durante esse tempo, manteve contato com franceses que chegavam à costa em busca de pau-brasil e atuou como intermediador cultural entre os europeus e os indígenas até o fim da vida.

Já o holandês Hans Staden por pouco não sobrevive para contar sua história. Foi na sua segunda viagem aos trópicos que Hans Staden – depois de ter escapado de um naufrágio no litoral de Itanhaém, São Vicente – foi capturado pelos índios tupinambás, quando caçava na floresta. Foi preciso muito esforço e conversa para convencê-los de que não era português e, assim, não virar comida de índio. O argumento crucial usado com os aliados dos franceses foi sua barba ruiva. Os portugueses eram reconhecidos pela barba preta. Além disso, Hans Staden teve a seu favor seus conhecimentos meteorológicos que tanto o ajudaram a impressionar os índios.

 

Trecho de Caramuru, de Santa Rita Durão

“Já estava em terra o fausto naufragante,

Rodeado da turba americana;

Veem-se com pasmo ao porem-se diante,

E uns aos outros não creem na espécie humana:

Os cabelos, a cor, barba e semblante

Faziam crer àquela gente insana

Que alguma espécie de animal seria,

Desses que no seio o mar trazia.”

Canto I, verso XIV, p. 16.

Bibliografia:

DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia. São Paulo: Martins Fontes, 2001 (Coleção Poetas do Brasil).

SILVA, Maria Beatriz Nizza da. (Org.). Dicionário da história da colonização portuguesa no Brasil. Lisboa; São Paulo: Verbo, 1994.

VAINFAS, Ronaldo. (Org.). Dicionário histórico do Brasil colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

[1] Costumava-se dizer que o nome de Caramuru lhe teria sido dado pela surpresa provocada nos indígenas diante de um disparo de seu arcabuz, significando, portanto, “homem do fogo”, “filho do trovão”. Mas a palavra indígena apenas dá nome a um peixe semelhante à moreia.

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